DICAS DE BIOGÁS

Soprador, Compressor ou Booster? Como escolher a compressão em projetos de biometano

Em uma planta de biogás e biometano, produzir o gás é apenas parte do desafio. Depois da produção, esse gás precisa ser captado, transportado, tratado, purificado e, dependendo da aplicação, comprimido novamente para chegar ao consumidor. É nesse caminho que aparecem equipamentos com funções diferentes, como sopradores, compressores e boosters. Embora todos possam aumentar a pressão de um gás, eles não são simplesmente três nomes para o mesmo equipamento.
A escolha depende principalmente da pressão de entrada, pressão de saída, vazão, composição do gás, razão de compressão e etapa do processo. Uma especificação inadequada pode aumentar o consumo elétrico, reduzir a vida útil dos equipamentos e comprometer a disponibilidade de toda a planta. Por isso, entender a compressão é fundamental para quem quer saber como escolher o compressor em projetos de biometano. E foi sobre esse tema que o último podcast da Dr Biogás abordou, recebendo Ivanildo Ferreira, engenheiro de vendas da Mayekawa do Brasil.

Por que a compressão é tão importante em projetos de biometano?

O biogás normalmente é produzido próximo à pressão atmosférica. Dependendo da origem e da configuração da planta, portanto, precisamos criar pressão para movimentá-lo entre diferentes processos. Em um projeto de biometano, podemos precisar de pressão para:
  • transportar o biogás bruto do ponto de produção até o tratamento;
  • vencer perdas de carga em tubulações, filtros e equipamentos;
  • alimentar tecnologias de upgrading, como membranas ou PSA;
  • transportar o biometano por gasoduto;
  • comprimir o gás para armazenamento ou transporte como GNC;
  • abastecer veículos em postos de biometano.
É por isso que, durante o episódio do Dr. Biogás Podcast, a compressão é descrita como o “coração” da operação. Se o sistema de compressão parar, diferentes etapas da planta podem ficar impossibilitadas de operar.
Mas isso não significa que devemos instalar um compressor convencional em todos esses pontos.

O que é um soprador de biogás?

O soprador, ou blower, é normalmente utilizado quando precisamos movimentar uma determinada vazão de gás com um incremento relativamente pequeno de pressão.
Em termos práticos, seu papel está muito mais associado ao transporte do gás e ao vencimento das perdas de carga do sistema do que à obtenção de grandes pressões.

Onde o soprador é utilizado em uma planta de biogás?

Imagine um biodigestor produzindo biogás próximo à pressão atmosférica.
Esse gás precisa percorrer tubulações e passar por equipamentos de tratamento antes de chegar ao ponto de consumo ou ao sistema de upgrading. O soprador pode ser utilizado para fornecer a diferença de pressão necessária para realizar esse transporte.
Em aterros sanitários, a lógica pode envolver ainda a criação de pressão negativa na rede de captação para ajudar a extrair o biogás dos poços.
De forma geral, o soprador pode aparecer em aplicações como:
  • movimentação de biogás bruto;
  • captação de biogás em aterros;
  • transporte entre biodigestor e sistema de tratamento;
  • compensação de perdas de carga;
  • alimentação de determinadas etapas de tratamento que trabalham em baixa pressão.
O ponto fundamental é que o objetivo principal do soprador não é produzir biogás em alta pressão.
Ele cria a diferença de pressão necessária para movimentar o gás dentro do processo.

O que é um compressor de biogás e biometano?

Quando a aplicação exige um aumento de pressão significativamente maior, entramos no campo dos compressores.
Ao comprimir um gás, reduzimos o volume ocupado por uma determinada massa de gás e aumentamos sua pressão. Isso também altera sua temperatura e cria uma série de desafios adicionais de engenharia.
Em projetos de biogás, esses desafios são particularmente importantes porque o gás pode carregar umidade, H₂S e outros contaminantes.

Onde o compressor entra em uma planta de biometano?

Um dos principais pontos está na preparação do biogás para o upgrading.
Algumas tecnologias de separação entre CH₄ e CO₂ precisam operar sob pressão para atingir a performance desejada. Sistemas de membranas são um exemplo importante.
No episódio, Ivanildo explica que determinadas aplicações com membranas podem requerer pressões superiores a aproximadamente 14 bar e que, nessas condições, a configuração do compressor começa a interferir significativamente no consumo energético da planta.
Portanto, um compressor pode ser utilizado para:
  • elevar a pressão antes do upgrading;
  • alimentar sistemas de membranas;
  • atender determinadas configurações de PSA;
  • realizar compressões intermediárias;
  • elevar a pressão do biometano para injeção em gasodutos;
  • integrar sistemas de compressão posteriores ao upgrading.

Compressor de simples ou duplo estágio?

Esse é outro ponto importante.
Tentar realizar uma grande razão de compressão em um único estágio pode aumentar temperatura, esforço mecânico e consumo energético.
Uma alternativa é dividir o processo.
No compressor de duplo estágio, parte da compressão acontece no primeiro estágio. O gás pode então ser resfriado antes de entrar no segundo estágio, onde ocorre uma nova elevação da pressão.
Segundo Ivanildo, em determinadas aplicações discutidas no episódio, essa configuração pode proporcionar aproximadamente 15% de redução no consumo energético, além de criar condições mais favoráveis para a durabilidade do compressor.
Isso é particularmente relevante porque o compressor pode operar milhares de horas por ano.
Uma diferença aparentemente pequena na potência elétrica pode se transformar em uma diferença relevante no OPEX acumulado durante a vida útil da planta.

E o que é um booster?

Aqui existe uma confusão bastante comum.
Booster não representa necessariamente um princípio mecânico diferente de compressor.
O termo normalmente descreve a função daquele compressor dentro do sistema: receber um gás que já possui determinada pressão e elevar essa pressão para um patamar superior.
Em outras palavras, enquanto podemos ter um compressor recebendo gás próximo da pressão atmosférica, um booster recebe gás já pressurizado e aumenta ainda mais sua pressão.

Onde utilizar um booster de biometano?

Um exemplo aparece depois do upgrading.
Imagine que o biometano deixe a unidade de purificação já pressurizado. Se o objetivo for injetá-lo em uma rede cuja pressão é superior à pressão de saída do upgrading, precisamos aumentar novamente essa pressão.
Essa função pode ser realizada por um booster.
O mesmo raciocínio aparece de maneira ainda mais evidente quando o objetivo é trabalhar com GNC — Gás Natural Comprimido, utilizando biometano.
No episódio, são discutidas aplicações em que o biometano precisa chegar a aproximadamente 250 bar para uma operação de GNC. Dependendo da pressão disponível na saída do upgrading, essa elevação pode exigir diferentes estágios de compressão.
O booster pode, portanto, ser utilizado para:
  • elevar a pressão após o upgrading;
  • adequar o biometano à pressão de um gasoduto;
  • alimentar sistemas de armazenamento;
  • carregar tube trailers;
  • realizar compressão para GNC;
  • integrar postos de abastecimento de biometano.
A palavra-chave aqui é pressão de sucção.
O booster normalmente não começa o trabalho com gás próximo à pressão atmosférica. Ele aproveita uma pressão que já existe e a eleva até a condição necessária para a aplicação seguinte.

Soprador, compressor e booster: qual a diferença?

A distinção fica mais fácil quando observamos a função de cada equipamento dentro do processo.

 

Equipamento
Pressão de entrada
Pressão de saída
Objetivo principal no biogás
Soprador
Próxima à atmosférica ou baixa pressão
Baixa pressão
Movimentar biogás e vencer perdas de carga
Compressor
Baixa ou média, conforme o processo
Média ou alta pressão
Comprimir o gás para tratamento, upgrading ou transporte
Booster
Gás já pressurizado
Pressão superior à entrada
Elevar novamente a pressão para rede, armazenamento, GNC ou abastecimento
Essa tabela é propositalmente conceitual. Não existe uma pressão universal que determine sozinha quando um equipamento deixa de ser soprador e passa a ser compressor, e o termo booster está relacionado sobretudo à função que o compressor exerce no sistema. Na engenharia real, é necessário analisar a razão de compressão e a curva do equipamento, além das pressões absolutas de sucção e descarga.

Como escolher o compressor em projetos de biometano?

Esse é o ponto em que a discussão deixa de ser apenas conceitual.
Não basta informar ao fornecedor quantos Nm³/h de biogás serão produzidos e qual pressão queremos na saída.
Uma especificação adequada precisa considerar, entre outros fatores:
  • vazão nominal e faixa de operação;
  • pressão de sucção;
  • pressão de descarga;
  • razão de compressão;
  • composição do biogás;
  • concentração de H₂S;
  • umidade e ponto de orvalho;
  • temperatura;
  • presença de contaminantes;
  • necessidade de remoção de óleo;
  • tecnologia de upgrading;
  • regime anual de operação;
  • consumo específico de energia;
  • estratégia de manutenção;
  • necessidade de redundância.
E existe uma variável que merece atenção especial: o que acontece com a planta quando aquele compressor para?

Redundância pode aumentar o CAPEX — mas uma parada também custa dinheiro

Em uma planta comercial de biometano, disponibilidade é fundamental. Se um compressor crítico parar, não adianta necessariamente o biodigestor continuar produzindo biogás. Dependendo da arquitetura da planta, podemos perder capacidade de purificação, compressão ou expedição do biometano.
A solução mais evidente seria instalar 100% de redundância. Mas isso significa comprar outro equipamento e aumentar o CAPEX. No podcast são discutidas outras possibilidades de engenharia, como manutenção preditiva baseada em análise de vibração, monitoramento da condição do compressor e utilização de um bloco compressor sobressalente. Outra estratégia é trabalhar com dois equipamentos em carga parcial utilizando inversores de frequência. Em uma eventual parada de uma das máquinas, a outra pode aumentar sua capacidade de operação. Não existe uma configuração universalmente correta. O dimensionamento precisa considerar o custo da redundância versus o custo e o risco de indisponibilidade da planta.

O menor CAPEX nem sempre significa o menor custo do biometano

Esse talvez seja um dos principais aprendizados para quem está desenvolvendo uma planta. Escolher um equipamento simplesmente porque apresenta o menor orçamento pode gerar uma economia no CAPEX e uma despesa muito maior durante os próximos dez ou vinte anos. Fatores como eficiência elétrica, intervalo entre manutenções, disponibilidade de peças, assistência técnica, redundância e tempo de parada interferem diretamente no custo operacional precisam ser considerados. Por isso, quando analisamos sopradores, compressores e boosters, a pergunta não deveria ser apenas:
“Quanto custa esse equipamento?”  É necessário perguntar também: “Quanto custa operar esse equipamento por Nm³ de biometano produzido ao longo da vida útil do projeto?” É essa análise que conecta uma decisão de engenharia ao ROI do investimento.

Afinal, a compressão é o coração dos projetos de biometano?

Em muitos projetos, sim. O soprador ajuda a movimentar o biogás nas etapas de baixa pressão, o  compressor cria as condições necessárias para processos que exigem maiores pressões, e o booster permite levar um gás já pressurizado aos níveis exigidos pela logística ou aplicação final. O problema começa quando esses equipamentos são tratados apenas como acessórios da planta. Pressão, vazão, composição do gás, eficiência energética, manutenção e redundância precisam ser analisadas como parte de um único sistema de compressão.
E essa decisão pode afetar CAPEX, OPEX, disponibilidade e, consequentemente, a rentabilidade do projeto.

Quer aprofundar essa discussão?

Se você quer entender como essas escolhas acontecem em projetos reais, como diferentes tecnologias de compressão afetam o OPEX e o retorno sobre o investimento (ROI) e quais desafios aparecem quando a planta entra efetivamente em operação, essa foi justamente a discussão do nosso podcast.
No episódio COMPRESSORES PARA BIOGÁS | Pressão, H₂S, umidade, eficiência e redundância, conversamos sobre justamente o papel da compressão em projetos de biogás e biometano, passando pela escolha dos compressores, umidade e H₂S, simples e duplo estágio, arraste de óleo, manutenção, redundância, compressão de biometano e até liquefação de CO₂.
👉 Assista ao episódio completo:

Sobre a Dr. Biogás

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