No mercado brasileiro de biogás, existe uma armadilha comum que atrai muitos produtores e indústrias: focar exclusivamente no custo imediato de implantação (CAPEX) e negligenciar a engenharia de longo prazo. No entanto, um biodigestor é um sistema multidisciplinar que operará por décadas e, sem um planejamento sólido, o que parecia economia se transforma rapidamente em um “elefante branco” com baixa eficiência ou custos operacionais astronômicos.
Em um episódio recente do Dr. Biogás Podcast, conversamos com Ivan Tremarin, engenheiro ambiental e sócio da B7 Soluções, que explicou como a engenharia de precisão e parcerias estratégicas, especialmente com o know-how italiano de mais de 20 anos, estão elevando o patamar de profissionalismo no setor.
Engenharia de Biogás: Por que o CAPEX não deve ser sua única métrica de decisão?
Um dos maiores erros é ver o detalhamento de engenharia como uma despesa. Ivan relata casos onde a escolha certa no dimensionamento e no sistema de agitação fez um cliente economizar R$ 400 mil logo na largada. Mas como?

Biodigestor CSTR de Codigestão (Silagem de sorgo, capiaçu e dejeto suíno terminação) – Biokohler, Toledo – PR.
- Dimensionamento Correto: Evita plantas subdimensionadas (que não tratam o resíduo) ou superdimensionadas (que geram ociosidade de geradores).
- Redução de Tamanho: Através de engenharia básica, é possível reduzir em até 30% o tamanho do biodigestor mantendo a mesma eficiência, apenas otimizando a agitação e o tempo de retenção.
- Engenharia aplicada e personalizada para casa caso: Outro ponto crítico para a viabilidade no Sul do Brasil e regiões de clima temperado ressaltado pelo Ivan, é o comportamento térmico do sistema. Estudos realizados pela B7 revelaram que a perda de calor pela cúpula do biodigestor chega a ser 11 a 12 vezes superior à perda pelo solo. Isso significa que, sem um isolamento adequado, a biologia do sistema entra em colapso no inverno, justamente quando o produtor mais precisa de energia. A solução técnica passa obrigatoriamente pelo uso de membranas duplas (gasômetros). O colchão de ar entre as camadas atua como um isolante térmico essencial para manter a produção de biogás estável. Projetos que ignoram essa variável podem apresentar uma ociosidade severa dos geradores, operando apenas poucas horas por dia por falta de combustível, o que destrói o payback planejado.
Codigestão: O “Pulo do Gato” para a Rentabilidade do Produtor: Para potencializar a rentabilidade, o setor caminha para a codigestão estratégica. Muitas vezes, o dejeto puro (especialmente o suíno, muito líquido) não extrai o máximo potencial do ativo energético instalado. Ao criar blends com resíduos de alto potencial metanogênico, como lodo de frigoríficos, o produtor consegue dobrar sua receita. Soma-se a isso a oportunidade de receber o tipping fee (taxa de recepção de resíduos), transformando a planta de tratamento em uma unidade de lucro multifuncional.
- Eficiência de Ativos: Preenche a lacuna de produção de gás, permitindo que o grupo gerador trabalhe 24 horas por dia, evitando o desgaste do “para e arranca”.
- Novas Receitas (Tipping Fee): O produtor deixa de ser apenas um gerador de energia e passa a ser um prestador de serviço ambiental, cobrando taxas de portão para tratar resíduos de terceiros.
- Salto no Faturamento: Em um case real citado pelo Ivan, a introdução controlada de resíduos externos elevou o faturamento mensal de energia de R$ 15 mil para quase R$ 38 mil.
Essa abordagem cria uma “vertical de lucro” tripla: Essa transição transforma a planta de um simples custo de conformidade ambiental em uma unidade de lucro multifuncional, acelerando drasticamente o payback do investimento.
Engenharia de precisão: Ninguém te fala isso no Biogás
Para profissionalizar o setor, é necessário encarar a engenharia não como um gasto acessório, mas como a base de um modelo de negócio seguro. Ivan Tremarin destaca que o investimento em inteligência técnica que se inicia com o Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) com tickets entre R$ 15 mil e R$ 40 mil e é o único pilar que de fato olha para a saúde financeira da planta. Sem esse diagnóstico, o risco de ociosidade é altíssimo, com geradores operando apenas frações do dia por erro de dimensionamento, por exemplo.
A jornada de implementação deve ser pautada por etapas rigorosas de engenharia de precisão:
- Engenharia e Acompanhamento: O detalhamento de um projeto básico e o acompanhamento técnico variam entre 5% e 15% do valor global do investimento.
- Segurança na Execução: Essa assessoria garante que o comissionamento e a operação assistida entreguem a performance biológica contratada, evitando que o investidor “compre uma Ferrari e receba um Fusca” ao final da obra.
- Visão de Futuro: A tendência para os próximos anos é o fortalecimento de plantas de médio e pequeno porte que priorizam a eficiência operacional e o aproveitamento de biometano.
A evolução do biogás de uma solução experimental e “tupiniquim” (que no passado utilizava adaptações rudimentares como motores automotivos e remção de H2S com palha de aço, por exemplo) para um ativo estratégico da matriz energética nacional depende de uma mudança drástica de mentalidade: a transição do foco exclusivo no custo de construção para uma cultura de gestão pautada na engenharia de operação e na integridade dos projetos.
Esta mudança é vital porque a sustentabilidade financeira de uma planta não é definida pelo gasto inicial, mas pela sua capacidade de evitar a ociosidade crônica, visto que muitos projetos mal dimensionados operam geradores por apenas seis a dez horas por dia por falta de combustível. Ao priorizar a engenharia de precisão, que envolve desde o estudo de viabilidade técnica e econômica até o comissionamento assistido, o investidor garante que o sistema funcione como uma engrenagem multidisciplinar perfeita, evitando que o ativo se torne um passivo ambiental ou um “elefante branco” ineficiente.
Conclusão
A tendência para os próximos anos é o crescimento de plantas de médio porte que foquem na eficiência operacional e não apenas no custo de construção. Assim, o investimento em inteligência técnica deixa de ser encarado como um custo acessório para se tornar a garantia real de que o projeto entregará a performance biológica e a rentabilidade esperada, protegendo o patrimônio do produtor contra escolhas erradas que poderiam custar centenas de milhares de reais ao longo da vida útil da operação.
Como discutido no Dr. Biogás Podcast, a demanda por energia só tende a aumentar, e o biogás é a solução pronta para esse novo cenário.
Se você está pensando em tirar um projeto de biogás ou biometano do papel, fale com o time da Dr. Biogás. Juntos, podemos identificar a solução mais adequada para a sua realidade e transformar potencial em resultado!
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Para saber mais sobre este bate-papo, assista ao Podcast na íntegra:


