O mercado de biogás e biometano no Brasil ainda está no início da sua jornada, mas já começa a ganhar escala, investimentos relevantes e novos modelos de negócio. Grandes empresas de energia passaram a olhar para esse setor não apenas como uma solução ambiental, mas como uma peça importante da infraestrutura energética do futuro.
Entre essas empresas está o Grupo Energisa, que decidiu entrar no mercado de biogás com uma tese clara: desenvolver projetos industriais capazes de transformar resíduos em três produtos estratégicos: energia, biometano e fertilizantes.
Para entender melhor como esse modelo funciona na prática, é importante analisar como nascem e operam esses projetos. Mais do que uma simples usina, uma planta moderna de biogás funciona como uma indústria complexa, conectando diferentes cadeias produtivas.
Neste artigo, realizado a partir do podcast da Dr Biogás com Luiz Fernando Tomazini – Diretor de Negócios de Biogás do Grupo Energisa, vamos explorar como funciona esse modelo de negócio, quais são os desafios operacionais e por que o biometano pode se tornar um dos pilares da transição energética no Brasil.
O biogás no Brasil: um mercado ainda em construção
Apesar do enorme potencial do país, o biogás ainda representa uma pequena fração da matriz energética brasileira, que possui algumas vantagens estruturais únicas, como uma grande produção agroindustrial, forte geração de resíduos orgânicos, setor agrícola altamente desenvolvido e necessidade crescente de descarbonização. Esses fatores criam um ambiente extremamente favorável para o crescimento do biogás.
O combustível é produzido a partir da decomposição de matéria orgânica, como resíduos industriais, resíduos agrícolas, esterco ou lixo urbano, em um processo chamado digestão anaeróbia, que gera dois principais produtos: O Biogás, uma mistura de gases rica em metano e o Digestato, fração líquida estabilizada que pode ser usado como fertilizante.
Quando o biogás passa por um processo de purificação, ele se transforma em biometano, um gás renovável com características praticamente idênticas ao gás natural. Isso significa que ele pode ser utilizado em diversas aplicações, como combustível industrial; geração de energia elétrica/térmica, Gás Natural veicular (combustível para veículos pesados) e até substituição do gás natural fóssil.
Esse potencial energético e ambiental explica por que cada vez mais empresas de infraestrutura energética estão investindo nesse mercado.
A entrada das empresas de energia no mercado de biogás
Historicamente, os projetos de biogás no Brasil surgiram principalmente em três setores: aterros sanitários, agroindústrias e produção de etanol. No entanto, nos últimos anos, empresas de energia começaram a enxergar o biometano como parte da infraestrutura energética do futuro.
Isso acontece por alguns motivos importantes:
- Descarbonização da matriz energética;
- Aproveitamento de resíduos industriais;
- Complementaridade com redes de gás natural;
- Interiorização da produção de energia.
O biometano permite levar produção energética para regiões onde muitas vezes não existe infraestrutura de gás. Esse modelo cria uma nova lógica: ao invés de transportar gás por longos gasodutos, é possível produzir o combustível mais próximo do consumidor.
Uma planta de biogás é, na prática, uma indústria?
Um dos conceitos mais interessantes no desenvolvimento de projetos de biometano é entender que essas plantas não funcionam apenas como usinas. Na prática, elas operam como indústrias com múltiplas linhas de produção. Um projeto moderno de biogás pode ser dividido em três grandes unidades produtivas.
1. A fábrica de biogás
A primeira etapa é a produção do biogás. Diferente de um aterro sanitário, onde o gás é gerado naturalmente a partir da decomposição do lixo, nas plantas industriais de biodigestão é necessário controlar completamente o processo biológico. Isso envolve: logística de recebimento de resíduos; controle de composição da biomassa; monitoramento do processo biológico e estabilidade da produção de gás. Como a produção de resíduos varia ao longo do tempo tanto em volume quanto em composição, esse é um dos principais desafios operacionais. O sistema precisa produzir gás de forma estável e previsível, mesmo com variações na matéria-prima.
2. A fábrica de biometano
Depois de produzido, o biogás precisa passar por um processo de purificação, que remove impurezas como dióxido de carbono (CO2), sulfeto de hidrogênio (H2S), umidade e outros contaminantes que possam interferir no processo. Após essa etapa, o gás passa a ter alta concentração de metano, tornando-se biometano. Esse combustível possui praticamente as mesmas características do gás natural, podendo ser utilizado na indústria ou transportado para outros mercados. Dependendo da localização da planta, o biometano pode ser injetado em gasodutos,transportado por caminhões em forma comprimida ou utilizado diretamente por consumidores industriais.
3. A fábrica de fertilizantes
Além do gás, o processo de biodigestão também gera um subproduto chamado digestato. Esse material é rico em nutrientes e pode ser transformado em biofertilizante. No entanto, transformar esse subproduto em um produto comercial viável exige: desenvolvimento agronômico, padronização do produto, estrutura logística, desenvolvimento de mercado. Esse é um dos desafios mais complexos da indústria de biogás.Afinal, vender fertilizante exige conhecimento de um mercado completamente diferente do mercado de energia.
Três mercados diferentes dentro do mesmo projeto!
Um projeto de biometano não depende apenas de tecnologia ou engenharia, ele precisa funcionar simultaneamente em três mercados distintos.
1. O mercado de resíduos: O primeiro mercado envolve os geradores de resíduos. Indústrias e agroindústrias precisam destinar seus resíduos de forma ambientalmente adequada, e uma planta de biogás oferece uma solução para esse problema. No entanto, existe um grande desafio logístico: a produção de resíduos não é constante. Ela pode variar de acordo com: ciclos de produção industrial, sazonalidade, variações de mercado, e mesmo assim, a planta precisa operar continuamente.Isso exige uma gestão sofisticada da cadeia de fornecimento de biomassa.
2. O mercado de fertilizantes: O segundo mercado é o agrícola. Os biofertilizantes podem ter grande valor agronômico, especialmente em sistemas de agricultura regenerativa, porém, o mercado agrícola funciona de forma muito diferente do mercado energético. Existem fatores importantes como a sazonalidade das lavouras, janelas específicas de aplicação, logística de transporte para áreas rurais e adaptação às culturas locais. Por isso, o desenvolvimento desse mercado exige forte trabalho técnico e agronômico.
3. O mercado de gás: O terceiro mercado é o consumidor final de energia. O biometano pode atender diferentes perfis de clientes: indústrias transportadoras distribuidoras de gás e empresas interessadas em descarbonização. Dependendo da localização da planta, a logística de distribuição pode ocorrer por meio de gasodutos ou transporte rodoviário(Esse último modelo, chamado de GNC – gás natural comprimido, permite levar o combustível para regiões onde não existe infraestrutura de dutos.
Os desafios operacionais do biometano: Um projeto de biogás em escala industrial é extremamente complexo, pois precisa equilibrar simultaneamente o suprimento de resíduos, a estabilidade da produção de gás, a qualidade do fertilizante e os contratos de venda de energia. Além disso, o sistema precisa operar de forma confiável durante décadas.Isso significa que a excelência operacional se torna um fator crítico para o sucesso do negócio.Projetos que não conseguem manter essa estabilidade de operação enfrentam riscos como: a quebra de contratos de fornecimento de gás, queda na eficiência de produção e aumento de custos operacionais.Por isso, cada vez mais empresas do setor estão priorizando engenharia robusta e gestão operacional altamente qualificada.
A economia de um projeto de biometano: Projetos de biometano exigem investimentos relevantes, e dependendo da escala e da tecnologia utilizada, o investimento de capital pode chegar a centenas de milhões de reais. Uma planta industrial capaz de tratar centenas de toneladas de resíduos por dia pode exigir investimentos entre dezenas e mais de cem milhões de reais. O retorno financeiro depende de vários fatores: como o preço de venda do biometano, o custo de aquisição de biomassa, as receitas com tratamento de resíduos, a possibilidade de comercialização de fertilizantes e a eficiência operacional de todo o sistema. Diferente de alguns projetos energéticos, o biometano geralmente possui prazos de retorno mais longos, refletindo a complexidade e o risco do negócio.
A “interiorização” da infraestrutura energética
Um dos aspectos mais interessantes do biometano é sua capacidade de levar produção energética para regiões afastadas das redes tradicionais de gás. Muitas regiões industriais do Brasil não possuem acesso a gasodutos, e nesses locais, o biometano pode funcionar como uma solução descentralizada.
Quando uma planta de biogás é instalada em uma região produtiva, ela cria um novo pólo energético local, que pode servir de estímulo à substituição de combustíveis fósseis, redução de custos logísticos e a descarbonização de cadeias produtivas. Com o tempo, essa infraestrutura pode até estimular novas aplicações, como o uso de gás renovável no transporte pesado.
O futuro do biogás e do biometano no Brasil – O potencial de crescimento do biogás no Brasil ainda é enorme. Especialistas estimam que apenas uma pequena parcela do potencial nacional foi explorada até agora. Diversos fatores devem impulsionar o crescimento do setor nos próximos anos, destacando a maior demanda por energia renovável, pressão por descarbonização industrial, desenvolvimento de políticas públicas e a valorização do atributo ambiental do biometano. Outro fator importante será a criação de mecanismos regulatórios que reconheçam o valor ambiental do gás renovável. Quando o mercado passar a precificar adequadamente esse atributo, o biometano poderá competir de forma ainda mais competitiva com combustíveis fósseis.
Um setor que ainda está apenas começando
Apesar dos avanços recentes, o mercado brasileiro de biogás ainda está em fase inicial.Muitos desafios tecnológicos, logísticos e comerciais ainda estão sendo resolvidos. No entanto, a entrada de grandes empresas de energia e infraestrutura indica que o setor está amadurecendo rapidamente. Projetos industriais de biometano mostram que é possível transformar um problema como a geração de resíduos em uma solução energética, agrícola e ambiental. Ao conectar esses três mercados, o biogás se posiciona como uma das tecnologias mais promissoras para a transição energética brasileira. E, considerando o potencial do país, essa história está apenas começando.
Se você está pensando em tirar um projeto de biogás ou biometano do papel, fale com o time da Dr. Biogás. Juntos, podemos identificar a solução mais adequada para a sua realidade e transformar potencial em resultado!
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Para saber mais sobre este bate-papo, assista ao Podcast na íntegra:
Sobre a Dr. Biogás
A Dr. Biogás é uma empresa de engenharia especializada em consultoria de projetos e capacitação profissional no setor de biogás e biometano.
Artigo desenvolvido por: Jadiane Paola Cavaler – Consultora de projetos da Dr Biogás.


