Por Dr. Biogás Podcast – com Erik Rezler, Archea.
O biodigestor CSTR (Continuous Stirred Tank Reactor ) é um dos reatores mais eficientes para produção de biogás no mundo. Mas será que o modelo alemão funciona da mesma forma no Brasil? Quem explica é Erik Rezler, engenheiro de automação e diretor da Archea Biogás, empresa de origem alemã com sede em Santa Catarina e uma das pioneiras em adaptar o CSTR à realidade brasileira.
🔸 O que é um biodigestor CSTR?
O CSTR é um reator de mistura completa, projetado para manter o substrato sempre homogeneizado e aquecido. A principal diferença em relação aos biodigestores lagoa coberta (BLC), mais comuns no Brasil, está no controle e na estabilidade do processo, tais como:
➡️ Agitação contínua: impede a formação de crostas e garante que toda a biomassa participe da digestão.
➡️ Controle de temperatura: normalmente trabalha entre 37 °C e 40 °C (faixa mesofílica), podendo chegar a 55 °C (termofílico).
➡️ Monitoramento constante: sensores acompanham indicadores como pH, ácidos voláteis, temperatura e produção de gás.
Esses fatores aumentam a eficiência da biodigestão e permitem alcançar até 90–95% de eficiência, segundo Erik.
🔸Por que o modelo alemão precisou ser adaptado ao chegar no Brasil?
Quando os primeiros CSTR chegaram ao Brasil, em 2012, a ideia era simplesmente replicar o projeto europeu. Mas logo ficou claro que o custo e a complexidade não se encaixavam na realidade nacional. Erik conta que foi aí que nasceu a versão “tropicalizada”:
“Se a gente fizesse um biodigestor igual ao da Alemanha, ele seria inviável aqui. Então desenvolvemos um modelo cônico, com parede metálica e cobertura em membrana: mais econômico, sem perder eficiência.”
Essa adaptação tornou possível implantar plantas menores e mais acessíveis, adequadas às condições climáticas e econômicas do Brasil.
🔸Principais diferenças entre o CSTR alemão e o brasileiro:
|
Aspectos |
Modelo Alemão | Modelo Tropicalizado (CSTR BR) |
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Estrutura |
100% concreto e acima do nível do solo |
concreto + membrana, semi enterrado |
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Controle de Processo |
automação e sensoriamento |
automação e sensoriamentol (32 indicadores) |
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Custo de implantação (CAPEX) |
custo elevado devido a estrutura necessária para construção. |
menor quando comparado ao sistema alemão, mas mantendo a eficiência |
| Manutenção | Profissionais especializados |
conta com operação assistida online |
Com a evolução do mercado e o avanço do biometano no Brasil, a Archea já retomou o uso de modelos 100% em concreto, semelhantes aos europeus, em projetos de maior escala.
🔸Escala e viabilidade
Para Erik, o CSTR começa a fazer sentido a partir de 2.500 m³/dia de biogás, o que equivale a um projeto de cerca de 250 kW em geração de energia elétrica diária. Projetos menores ainda enfrentam o desafio do custo, embora futuramente, a empresa busque soluções mais compactas para atender essa demanda de menor escala também.
“No Brasil, o investidor ainda busca retorno em até cinco anos.
Com o aumento de preços na pandemia, os projetos menores ficaram mais difíceis de viabilizar.
Mas acima de 20 toneladas de lodo por dia, o CSTR já se paga.”
🔸Exemplos
A Archea já construiu mais de 13 plantas de biodigestão na América Latina, em países como Brasil, Argentina e Uruguai. Entre os casos mais curiosos, Erik cita uma planta catarinense que opera 100% com dejeto de galinha poedeira, algo inédito no país.
O segredo do sucesso?
“Trabalhamos o equilíbrio de nitrogênio e micronutrientes.
A biologia se adapta, e conseguimos até 65% de metano no gás final.”
Outros projetos utilizam resíduos de frigoríficos, suinocultura, aterros sanitários e até vinhaça, sempre com acompanhamento biológico e monitoramento remoto.
🔸O CSTR e o futuro do biogás no Brasil
Erik acredita que o país tem potencial para superar a Alemanha em número de biodigestores:
“Se eles têm 10 mil plantas numa área do tamanho do Mato Grosso do Sul,
o Brasil pode ter 30 mil. Temos muito mais resíduo e área agrícola.”
Mais do que tratar dejetos, o CSTR transforma resíduos em energia limpa e receita recorrente, consolidando o biogás como um negócio sustentável.
🔸Conclusão
A diferença entre o biodigestor CSTR alemão e o brasileiro vai muito além do formato: é uma questão de adaptação tecnológica e econômica. Hoje, o modelo tropicalizado mostra que é possível alcançar alta eficiência com custos compatíveis à realidade nacional, e abre caminho para a expansão do biogás e do biometano no país.
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