O setor de biogás e biometano no Brasil entrou definitivamente em uma nova fase. O que antes era visto como uma promessa de transição energética agora ganha escala industrial, tração regulatória e bilhões em investimentos. Em entrevista ao podcast da Dr. Biogás, conduzida por Ricardo Müller, o Diretor Executivo da Abiogás, Tiago Santovito, apresentou um panorama direto sobre o avanço do mercado brasileiro, os pilares que sustentam a viabilidade dos projetos e os impactos estratégicos da reforma tributária para o setor.
O futuro do biometano já começou?
Os números deixam claro que o mercado saiu do campo das expectativas e entrou no ciclo de expansão acelerada. Somente no primeiro trimestre de 2026, o setor monitorou cerca de R$ 3 bilhões em investimentos. Hoje, o Brasil possui 19 plantas de biometano cadastradas na ANP, enquanto outras 50 unidades seguem em processo de autorização.
A projeção de capacidade instalada para o final de 2027 já alcança 3,2 milhões de m³/dia, um salto significativo para um mercado que cresce mês após mês. Mas o dado mais impressionante está no potencial de curto prazo: até 2030, o país pode atingir 35 milhões de m³/dia em produção de biometano. Para efeito de comparação, esse volume representa quase 90% do diesel atualmente importado pelo Brasil.
Uma coisa ficou clara: O biometano deixou de ser complementar, ele passa a ocupar uma posição estratégica dentro da matriz energética nacional.
Os três pilares que definem a viabilidade dos projetos
Durante a conversa, Santovito destacou que o sucesso dos novos empreendimentos depende de três fatores fundamentais. Mais do que tendências, eles são os verdadeiros pilares de sustentação econômica dos projetos.
1. Precificação do CGOB
O Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) surge como uma fonte adicional de receita extremamente relevante para viabilizar operações. Na prática, o certificado agrega valor ambiental à molécula renovável e pode ser decisivo para fechar a conta financeira de muitos empreendimentos. À medida que o mercado amadurece e a demanda por descarbonização aumenta, o CGOB tende a ganhar protagonismo dentro da estrutura de receitas do setor.
2. Logística de entrega
Outro ponto crítico é a definição logística. Projetos precisam avaliar cuidadosamente qual modelo faz mais sentido:
- Transporte rodoviário via GNC;
- Conexão dutoviária ou modelos híbridos.
Cada alternativa possui impactos distintos em: CAPEX; tarifa de acesso; custo operacional e escalabilidade do negócio. A logística deixa de ser apenas operacional e passa a ser uma variável estratégica de competitividade.
3. Demanda e substituição energética
Segundo Santovito, não basta produzir biometano, é necessário entender quem comprará essa molécula e qual energético será substituído. Em muitos casos, o biometano entra diretamente na disputa econômica com o diesel, especialmente em operações industriais e logísticas. Por isso, a análise de competitividade precisa considerar o preço do combustível substituído; a eficiência energética; os benefícios ambientais envolvidos; quais os incentivos regulatórios e custo de distribuição. É essa equação que determinará a velocidade de expansão do mercado nos próximos anos.
Reforma tributária: um divisor de águas para o setor
Um dos momentos mais relevantes da entrevista foi a análise sobre os impactos da reforma tributária no mercado de biometano. Com forte conhecimento técnico na área contábil e tributária, Santovito explicou que o novo modelo cria vantagens competitivas importantes para os biocombustíveis.
O biometano já nasce com um diferencial significativo:
- terá desconto mínimo de 10% em relação às alíquotas aplicadas ao gás natural fóssil;
- em alguns cenários, esse benefício pode chegar a uma redução de até 90% da carga tributária.
Além disso, a lógica do novo sistema IBS/CBS favorece estados consumidores, estimulando cadeias regionais de produção e consumo. Na prática, isso fortalece um dos maiores atributos do biogás: a descentralização.
Um mercado democrático e cheio de oportunidades
Diferente do mercado tradicional de gás natural, historicamente concentrado em projetos bilionários ligados ao Pré-sal, o biogás possui uma característica única: ele é distribuído territorialmente. Isso cria um ambiente muito mais democrático para novos negócios. Grandes grupos podem focar em operações robustas e infraestrutura complexa, enquanto empresas menores conseguem ocupar nichos regionais altamente rentáveis, com riscos mais controlados e proximidade da demanda. e essa pulverização transforma o biometano em uma das agendas mais promissoras da transição energética brasileira.
O Brasil está diante de uma janela histórica
A combinação entre os avanços regulatórios, segurança jurídica, incentivos tributários, demanda crescente por descarbonização e abundância de resíduos orgânicos, coloca o Brasil em posição privilegiada no cenário global do biometano. O mercado ainda está no início da curva de crescimento, e os próximos anos tendem a definir os protagonistas dessa transformação energética. Se antes o setor discutia potencial, agora o debate é sobre escala. E a escala já começou.
Para saber mais sobre este bate-papo, assista ao Podcast na íntegra:
Sobre a Dr. Biogás
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Artigo desenvolvido por: Jadiane Paola Cavaler – Consultora de projetos da Dr Biogás.


